
2.1 - Situação Política:
Uma prática existente em Lages e região serrana , como no próprio Estado de Santa Catarina, e até mesmo em todo o Brasil, foi o coronelismo. Para Carvalho, (1997), coronelismo são hábitos políticos e sociais realizados por latifundiários, que exercem a dominação sobre os agregados que vivem em suas terras ou delas dependem para sobreviver. É um sistema político de barganhas entre o Estado e os fazendeiros locais. Esse fenômeno político tem suas origens em 1831, quando é criada a Guarda Nacional do Império, que extinguiu as milícias, ordenanças e guardas municipais. Os coronéis desta nova corporação eram civis nomeados, estes eram, aqui no sul do Brasil os fazendeiros poderosos da região e os caudilhos ; e os grandes senhores de engenho no leste e nordeste do Brasil. Seus oficiais eram os capatazes da própria fazenda, pessoas importantes ou aliados políticos, os soldados eram escolhidos entre os agregados, peões e capangas dos próprios fazendeiros ou também pessoas que moravam em vilas próximas e até mesmo das pequenas fazendas. Assim surge o fenômeno do coronelismo com o objetivo de servir ao Império, nas dispersas terras do interior e litoral do Brasil. Esse fenômeno tem como período mais ou menos definido entre os anos 1830 a 1870, período Regencial e o Segundo reinado de Dom Pedro II, mas que na prática se estende até 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas à presidência da República e o fim da política Café-com-Leite entre São Paulo e Minas Gerais. Alguns acreditam que ocorreu até o final do século XX em cidades pequenas e com baixos índices de alfabetização escolar. Entretanto, Munarim (2000) e Peixer (2002), salientam que a cultura política enquanto prática mandonista, característica do coronelismo continuam com vitalidade até os dias atuais.
Na região serrana de Santa Catarina em especial, os coronéis eram da família Ramos em Lages, os Rupp em Campos Novos, Albuquerque em Curitibanos (coronelismo rural), Konder-Bornhausen no litoral norte, os Luz na capital Florianópolis (coronelismo urbano), entre outros. “Essa política coronelista e ditatorial, outorgava-lhes o direito de ser ao mesmo tempo juiz, delegado, chefe, conselheiro, legislador, sendo assim, ditavam ordens, influenciavam a política local e decidiam eleições, recebiam respeito, admiração e principalmente obediência de seus subalternos” (THOMÉ, 2002).
Lages também tinha como “famílias ilustres”, oligarcas: os Motas, os Ribeiros, Camargos, Pires, os Vieiras, Furtados, Limas e os Araújos. Todos estes possuíam muitas terras. Em suas fazendas tinham gado, pinheiros de araucária e inclusive escravos no período da escravatura. Nas fazendas cometiam agruras aos negros e também aos índios pertencentes às tribos Xokleng e Kaingang que permaneceram na região até o início do século XX. De acordo com Ataíde (1988), as fazenda Cruz de Malta, fazenda do Pinheirinho, do Guarda-Mór, fazenda do Negreiros, das Bananeiras, Monte Calvário, do Limueiro, do Pai Querê, fazenda da Cascata, do Aleixo, Santo Antônio, do Baú, Mangueirão, São Roque, Araújo, fazenda da Mortandade, dos Gateados, São João e outras hoje situadas nos municípios de Lages e São Joaquim, são pertencentes às famílias acima citadas.
Os Ramos foram eleitos diversas vezes no cenário político municipal e estadual no quadro a seguir veremos a relação de prefeitos da cidade de Lages. Quando não eram os da família Ramos eleitos prefeitos, alguém ligado ao partido ou nomeado dava continuidade ao poder político da família.
1. Quadro - Prefeitos municipais de Lages: 1895 a 1973.
Nome Período Observações
Vidal José de Oliveira Ramos Junior 16/01/1895 a 31/12/1898 01/01/1899 a 31/12/1902 Governador Estadual em duas gestões 1902 - 1905; 1910-1914.
Belizário José de Oliveira Ramos 1902 assume como substituto. Superintendente entre 01/01/1903 – 31/12/1922 Irmão de Vidal José de Oliveira Ramos Junior.
Octacílio Costa Substituto em exercício de 01/1911 – 08/1914 Genro de Belizário Ramos.
Belizário José de Oliveira Ramos 1915 – 1918
Aristiliano Ramos Substituto em exercício 01/1919 – 12/1922 Filho de Belizário – assume também o Governo do Estado de Santa Catarina.
Octacílio Costa 01/1923 – 10/1926 Já como um dos articuladores, desde 1916, da oposição aos Ramos. Um dos motivos alegados, para essa primeira fissura foi a disputa da herança política do sogro.
Caetano Vieira da Costa 1927 – 10/1930 Na Revolução de 30, colabora na resistência em Florianópolis contra Getúlio.
Octávio Ignácio da Silveira Filho 10/1930 – 10/1932 Nomeado por Nereu Ramos e Aristiliano.
Henrique Ramos Junior 1932 – 05/1935 Aliado de Nereu e Aristiliano.
João Cruz Junior 05/1935 – 03/1936 Substituto interino.
Henrique Ramos Junior 03/1936 – 11/1937 Saiu por discordar do Golpe de 1937.
Ewaldo Schaeffer 11/1937 – 12/1937
Indalécio Domingues Arruda 05/01/1938 – 14/05/1941 Nomeado por Nereu Ramos quando o mesmo era Interventor Federal em SC.
Vidal Ramos Junior 21/07/1941 – 14/11/1945 Irmão de Nereu Ramos – 1° mandato.
Indalécio Domingues Arruda 11/1945 – 01/1946 Com a exoneração de Nereu Ramos da Interventoria em outubro de 1945, logo termina o mandato de Indalécio.
Vidal Ramos Junior 14/02/1946 – 31/01/1951 É substituído num breve período por Jairo Ramos de 24 de abril a 20 de dezembro 1947. 2° mandato.
Osni de Medeiros Régis 01/1951 – 12/1954 Eleito pelo Partido Social Democrático (PSD). Em dezembro de 1954 deixa a prefeitura para assumir mandato como Deputado Federal.
Valdo da Costa Ávila 12/1954 – 02/1955 PSD.
Euclides Granzotto 02/1955 – 01/1956 PSD.
Vidal Ramos Junior 02/1956 – 31/01/1961 3° mandato. Morreu em setembro de 1961.
Wolny Della Roca 01/1961 – 01/1966 PSD.
Valdo da Costa Ávila 01/1966 – 12/1966 Faleceu em dezembro de 1966.
Nilton Rogério Neves 12/1966 – 01/1969 Aliança da Renovação Nacional – Arena.
Áureo Vidal Ramos 01/1969 – 01/1973 Arena
Fonte: (PEIXER, 2002, p. 105)
Esta oligarquia, que conforme definição clássica é o governo de poucas pessoas, pertencentes ao mesmo partido, classe ou família (BOBBIO, 1992), controla as pessoas e as coisas que acontecem na cidade, seus latifúndios (terra e gado - poder patrimonial) lhes dão poder político e social. Seus cargos públicos lhes permitem direcionar as decisões políticas e administrativas, que irão culminar em benefícios próprios e de seus partidários. Proporcionando assim, mais privilégios econômicos para a ampliação de suas terras e do seu comércio, criando uma rede de alianças dentro e fora do Estado de Santa Catarina.
Fora do Estado os fazendeiros comercializavam o couro, a carne e a erva-mate. Em Sorocaba – SP, grande feira de compra e venda que por sua vez também comercializava os produtos vindos do Sul, com Minas Gerais abastecendo as minas com transporte e alimentos e também o consumo interno no próprio Estado de São Paulo. Com o Rio Grande do Sul o principal comércio era com as charqueadas. O transporte dos produtos comercializados era feito via Laguna pela Serra do Rio do Rastro, por Florianópolis pela hoje chamada (BR 282), Curitiba (BR 116 – antiga BR 2), entre outras cidades, que o comércio trouxe às famílias oligarcas grandes somas em dinheiro e status.
Esse status possibilitou aos filhos desses fazendeiros estudarem em colégios de São Leopoldo (RS), São Paulo (SP) e Curitiba (PR), conquistando assim títulos que lhes favoreciam melhores oportunidades de investimento e trabalho. (PEIXER, 2002).
No cenário político estadual havia as disputas entre os Konder e os Ramos pela política econômica, desde o início até meados do século XX, de um lado os pecuaristas da Serra e de outro os industriais do Vale do Itajaí. As disputas pelo governo estadual buscavam favorecimentos do governo federal.
Em 1902, quando Vidal Ramos foi eleito vice-governador na chapa de Lauro Müller; e, governador em 1910. No mesmo período, seu irmão, Belizário Ramos, comandou a prefeitura de Lages, permanecendo à sua frente por vinte anos consecutivos (de 1902 a 1922) (MAY, 1998, p.33).
Como aconteceu com Carlos Renaux (Brusque) que foi indicado por Adolfo Konder (Itajaí - governador do estado de Santa Catarina de 1926 a 1930) para ocupar a vaga de ministro da Viação e Obras Públicas do presidente Washington Luís de 1926 a 1930. Assim também em 1935, Nereu Ramos foi indicado pelo então presidente Getúlio Vargas ao cargo de interventor permanecendo no cargo até 1945, quando foi deposto, iniciando o processo de redemocratização do país. (MAY, 1998).
O domínio político em Lages e região perpassam os anos de 1850 a 1972, sempre estando atrelado à família Ramos, fazendeiros, “latifundiários prósperos, coronéis por obra e graça do imperador” (SILVA, 1994, p.31), que quando não estavam no poder, era possível comandar através de correligionários ou também contratos de casamentos. Belizário Ramos (herdeiro da Fazenda Morrinhos) foi quem fundou o primeiro partido em Santa Catarina em 1891, o Partido Republicano Catarinense (PRC). Os Ramos revezaram o poder político com as famílias do Vale do Itajaí e do litoral catarinense (os Konder, os Bornhausen, os Viana, os Luz, os Rupp e os Bayer), com interesses antagônicos, na serra o predomínio dos latifúndios, no litoral o incentivo e desenvolvimento das indústrias.
Com o Rio Grande do Sul, Lages teve uma política mais amistosa, pois haviam passado por situações em que as políticas se uniram para vencer os monarquistas na Revolução Farroupilha em 1835, que foi bem recebida pela população local, e também quando Júlio de Castilhos manda uma força militar, ajudar a combater o Canudinho (1897) de Lages, a pedido do coronel Rupp de Campos Novos, assim como na Guerra do Contestado (1912-1916).
Em May (1998) podemos encontrar que, Vidal Ramos Junior (herdeiro da Fazenda Guarda-Mór) e o PRC apoiaram Lauro Müller para governador na primeira eleição do Estado. Assim como Belizário Ramos apoiou Hercílio Luz, fazendo com que às duas oligarquias coronelistas os “Ramos” e o grupo de Lauro Müller no litoral governassem o Estado até 1917, e em seguida vem a oligarquia Luz. No governo do Estado, Vidal de Oliveira Ramos governou de 1910 – 1914 Aristiliano Laureano Ramos 1932 a 1935, Nereu Ramos 1935 – 1945 como (interventor), Aderbal Ramos da Silva governador pelo PSD 1947 – 1950. Em Lages a prefeitura foi comandada por Belizário Ramos de 1902 – 1922, 20 anos consecutivos. Estes políticos sempre exerceram relações de “mandonismo” e “clientelismo” político e econômico, pois sempre tiveram atrelados aos cargos mais expressivos de dominação.
Para Silva (1994), este cenário político começa a mudar nos anos de 1970 com a intensificação da oposição do MDB na região. Juarez Furtado e principalmente Dirceu Carneiro, são os precursores da mudança no cenário político local. A quebra do ritmo político das oligarquias é real, e uma nova forma de governo popular se inicia. Dirceu e sua equipe criam modelos de governabilidade em que a atuação popular é mais efetiva, não determinante. Assim, se estabelece um novo modelo de se fazer política em Lages e que irá repercutir em nível nacional. O que veremos mais adiante no capítulo sobre movimentos e organizações sociais.
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