


Do latim educare, significa "conduzir para fora". Sem dúvida, é uma boa definição do ato de preparar uma pessoa para a vida.
08/10/2004
Educar para libertar
Os problemas da educação devem ser repensados, neste começo tumultuado do terceiro milênio, a partir da ótica da mudança. Nas últimas décadas, mudou a geografia, desapareceram antigas fronteiras, ruíram velhas ditaduras de aparência inabalável, caiu o Muro de Berlim, encerrou-se um longo período conhecido como Guerra Fria, caracterizado pelo ódio, pelo maniqueísmo, pela intolerância.Nesse quadro de surpresas e transformações, tudo o que funcionava na antiga ordem -planos, projetos, conceitos e avaliações- deve ser reexaminado, com coragem e até mesmo com alguma ousadia.O fim da Guerra Fria não significou apenas o abandono da disciplina do medo e da sintaxe da mentira. Significou também a substituição da confrontação pela negociação do conflito, pelo diálogo. O fim de uma era. O naufrágio de um tempo de sombras.Falar em educação, hoje, é discutir a nova realidade, colocar-se em sintonia com ela. Usar a linguagem dos anos 60 ou dos anos 70, em 2004, equivale a falar aramaico. As questões trazidas pelos avanços científicos e tecnológicos, o papel da mulher na sociedade moderna, o desafio da droga, a defesa do meio ambiente, o papel dos meios de comunicação, a relação entre poder e liberdade, o perfil dos filhos do futuro -há muitos motivos para redefinirmos a educação e nos reeducarmos.Depois de décadas de autoritarismo, de trevas, de alienação forçada, atrofiou-se a capacidade de reflexão crítica, de questionamento, de dúvida. Isso aconteceu no mundo inteiro, muito particularmente na América Latina, marcada pelo empobrecimento e pelo autoritarismo. Agora, fracassados os modelos impostos de cima para baixo, é hora de reconstruir, de rediscutir.O primeiro desafio, portanto, é o da modernização de corações e mentes, com a substituição de hábitos e posturas, o aprimoramento de práticas e instituições. Nesse novo quadro, visto pela ótica da mudança, as pessoas devem ser reeducadas, antes de mais nada, para o convívio democrático.O chamado entulho autoritário -os escombros das ditaduras naufragadas, que ainda poluem nossas praias- persiste nas leis, nas atitudes, nos vícios de raciocínio e nos preconceitos com os quais nos defrontamos diariamente. Liberamos as feras do autoritarismo sempre que consideramos como inimigo alguém que discorda de nós; quando queremos simplesmente suprimir os antagonismos, as controvérsias, seja pela coerção ou pela imposição de uma eventual maioria; quando achamos que o melhor meio de calar os dissidentes é pela disciplina rígida ou pela punição exemplar.Como domar essas feras?Nossos países, ainda acossados pelo atraso, só encontrarão seu caminho, sua identidade, na solidariedade internacional, na defesa da paz, do pluralismo dos princípios de não-intervenção e auto-determinação dos povos. Mas essa mudança começa dentro de cada pessoa, em cada comunidade, no pluralismo de cada nação.A busca da verdade, do desenvolvimento e da qualidade de vida depende, para o seu sucesso, da capacidade de criarmos um sistema educacional à altura dos novos desafios. Depende da criação de uma universidade que funcione permanentemente como instrumento de avaliação e reavaliação crítica do esforço nacional, consciente de que, numa democracia, é a sociedade que organiza e disciplina o governo, não é o governo que organiza e disciplina a sociedade.A educação deve ser colocada a serviço do desenvolvimento, deve ser instrumento de combate à miséria. Mas deve ser, também, uma escola sem fronteiras, capaz de mudar comportamentos, permitindo que mulheres e homens de amanhã se comprometam com uma prática diuturna de respeito aos direitos humanos mundialmente consagrados, com a idéia de que precisamos conviver harmoniosamente com a divergência e a controvérsia.Então estaremos efetivamente nos reeducando, já que "só há aprendizado quando há mudança de comportamento", como ensinava B. F. Skinner.Em 2004, a diversidade e o pluralismo são a nossa grande aventura. Nossa álgebra e nosso espelho. Entramos num capítulo da história que exige heresias quase ilimitadas, exceto, é claro, no campo da liberdade.
Edevaldo Alves da Silva, 71, advogado e professor, é presidente das instituições UniFMU, UniFIAMFAAM e Fisp e da Fundação Professor Edevaldo Alves da Silva.
Fonte: Folha de S.Paulo
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